Ontem à noite mal preguei olho. Estive largo tempo envolvido num vendaval de pensamentos. Pensamentos atrozes, nada de bom, entre o presente e o passado, na constatação das fraquezas humanas, na roda dentada dos sentimentos, numa espécie de mac menu desgostoso (e não de-gustativo), daqueles de abrir feridas enormes nas paredes do estômago, apertado mas já ulcerado. Mas,afinal o que se passou? Que inquietação pode levar a tão profunda gastrite? Posto assim até parece ligeiro, mas não foi. Uma gastrite dura apenas um tempo, curto, mas esta ferida vai durar a vida inteira. Eu sei, senti-a a abrir e sei que não tem remédio que a cure. Vou ser levado nesse vendaval e a tempestade só agora começou.
Sábado fui ver a minha mãe, que se encontra doente e acamada num lar. Pensamos sempre que um lar de 3ª idade será o último lugar onde colocaremos os nossos pais. E, em boa verdade até penso que deve ser assim. O egoísmo leva-nos a permitir que eles, quando idosos, levem ao extremo as suas ideias e desejos. O medo do envelhecimento apodera-se e, quase sempre, essa decisão fica para último recurso. No meu caso isso também aconteceu. Só quando vimos que a aparelhagem não funcionava mais é que parámos. Sentir ficou para trás, está agarrado a sentimento e como tal foi relegado, afastado do rol de possibilidades e, assim surgiu VER, constatar in loco. Pois, foi exactamente no momento cruel da realidade, sumária, inequívoca, que nos percebemos (vimos!) o problema: a mãe estava mal.
A mãe foi retirada dos seus recursos quase de repente. Foi afastada do homem com quem vivia (dura realidade!) quando vimos que não tinha condições de salubridade e que a saúde degenerava rapidamente. Mas, fomos tarde. A cabeça já não trabalhava como deve de ser, o corpo apresentava falhas sistemáticas ao nível de vários órgãos e os membros inferiores estavam praticamente paralisados. Foi para um lar para ser devidamente alimentada e para que a higiene pessoal estivesse devidamente cuidada.
Foi para reforçar os alicerces, para que as pernas voltassem a mostrar movimentos cessados, que as feridas emergentes fossem tratadas. Para encontrar alguma paz.
A ideia era boa, não sei se a melhor, mas foi assim que se processou. Não que a consciência tivesse ficado tranquila, não, não se tratava de um alivio mas tão somente do inicio de uma nova face.
Não imaginava que a mãe pudesse envelhecer tão rapidamente. Ela tinha 85 anos mas aparentava ter pouco mais do que 70. Tínhamos a ideia que estava em forma e não fosse a sua famigerada decisão e ir viver com X para obstruir a solidão, e decerto estaria ainda mais fresca. Sentíamos a decadência (sim esta estava no plano do SENTIR), mas não a víamos prostrada para a frente nem vacilante no pensamento. Contudo percebíamos que melhor não estava e certamente não poderia, ora pela idade, ora por X não ter a capacidade de a elevar a qualquer nível. O campo espiritual apresentava-se declinante e esse era o maior dos sintomas. Algum desinteresse em Deus leva-a para um mundo de medos e desastres de toda a espécie. A cultura (sempre presente ao longo da sua existência anterior) também começava a ficar posta de parte. E, estas eram as principais pistas que nos levavam a pensar no seu declínio, que considerámos inevitável e de certa forma traçado por ela como se de uma penitência se tratasse, como se tivesse de regredir à ínfima forma para se salvar. Mas, não, julgo que não. Penso que foi apenas uma má decisão, eventualmente tomada a partir do inicio do declínio, como o primeiro acto de demência que não percebemos, oculto na maioridade, ao fim ao cabo, de todos nós.
Estive com ela cerca de meia-hora. A Beatriz esteve comigo todo esse tempo. Relatámos acontecimentos, fingimos ter percebido algumas coisas e respondemos sempre assertivamente, como que a dar conforto. Este tempo pode parecer pouco mas não é. Tivemos de, com alguma imaginação, encontrar temas de conversa que não despertassem algum tipo de conflito e, por isso, falámos de "coisas" em sentido positivo, e só recorremos ao neutro quando percebíamos que a sequência não era a melhor.
Neste tempo de conversa quase unívoca, vi o tempo, vi a dor. Até agora só tinha sentido. Em determinado momento a mãe referiu a dor que sentia num joelho. Uma dor, uma dor que vinha do peito do pé até ao joelho, apenas mais uma, dor. Como que sentindo o nosso desinteresse no assunto (que obviamente não existia), começou a chamar pelos pais: - Mãe, papá. Como se fosse um bebé, como os meus filhos faziam quando tinham um ou dois anos e bem me recordo, como quando eu fiz quando tinha essa mesma idade, pese embora disso não tenha recordação efectiva.
Vi a efectividade da memória no que que concerne ao sentimento. Segurança. A segurança não estava comigo mas tão somente com os pais dela. E, percebi que ela tem razão. Que posso eu fazer? Como posso fazer passar aquela dor? Como poderei substituir-me aos pais dela? Os pais que ela teve apenas até aos dois anos de idade. Sinto-me emocionalmente derrotado. Pensei saber mais do que sei. Pensei que podia ajudar mais e não posso. Espero continuar a vê-la, melhor, de preferência. Espero poder ainda trocar algumas palavras com ela a este propósito mas, mais do que a coragem, desconheço a capacidade que ela possa ter para perceber o meu interesse e a minha para poder compreender. Afinal, eu tive pais, e ainda tenho mãe.

Comentários

Anónimo disse…
É assim a vida.Muitas alegrias mas também muitas tristezas.
Como diz há muito a musica ... a vida é sempre a perder ...
E a verdade é sempre mais cruel quando constatamos o que não gostariamos de ver.
A vida é sempre a perder mas também é sempre em frente. Sempre com os nossos no pensamento e com a ajuda de Deus.Pedro

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